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Thursday, 10 September 2026

A Meretriz do Ditador Capítulo IV

Capítulo IV



Ele estava demasiado perto, conseguia sentir o seu cheiro. Usava um perfume almiscarado, intenso, oriental. Conseguia saboriá-lo na parte de trás da garganta e, por baixo disso, cheirava a suor.

Limpei a garganta e afastei-me ligeiramente dele, retirando a mão com cuidado. «Quero ser bailarina», disse-lhe eu, «ou coreógrafa, se não for suficientemente boa...»

«Uma bailarina!» Ele arqueou as sobrancelhas. Estaria divertido ou desdenhoso? Parecia um adulto a reagir a uma criança de cinco anos que admitisse a sua ambição de ser astronauta.

«Sim», respondi. «Estou a estudar na universidade, com a Madame Roselle. Ela é brilhante! Foi prima-bailarina no Ballet Nacional...”

Ele sorriu e deslizou a mão pelo meu braço, voltando a agarrar-me a mão. «Fiz da cultura e da educação uma prioridade da minha administração», disse ele.

«É um dos triunfos da revolução que todos os jovens de Belvaria possam frequentar a universidade, independentemente de as suas famílias serem ricas ou pobres.»

A língua dele saiu e tocou exatamente no centro do lábio superior, depois recuou como um animal a voltar para o seu covil.

A boca dele abriu-se num sorriso. «É isto que tu e aqueles jovens no protesto não compreendem, pequena Dita. Se não fosse por mim, não estariam a protestar, não seriam estudantes. Estariam a trabalhar nos campos, a esfregar chão, a varrer ruas.»

Ele levou a minha mão aos lábios e beijou-a. A boca dele estava molhada da língua, viscosa. «A minha pequena Dita não seria bailarina!»

«Mas...», sussurrei. Estava com medo, mas lembrei-me dos olhos do Carlos, dos seus lindos lábios carnudos, e disse o que ele teria dito. «Mas tantos estudantes desaparecem...»

O Generalíssimo — o Papá Juan — assumiu um ar triste e acenou com a cabeça. «Há uma epidemia a alastrar-se pelo nosso país por causa dos americanos, Dita. Estão a roubar-nos os nossos jovens, o nosso futuro, e a vendê-los, a traficá-los.»

«Tráfico?», perguntei, atordoada. «Mas certamente... O exército...»

Ele abanou a cabeça com tristeza. «O exército falhou ao proteger as crianças, e essa é a minha maior vergonha. Estamos, neste preciso momento, a implementar mudanças. Vamos concentrar as nossas forças nas ruas das nossas cidades, não nas fronteiras. De que serve proteger as fronteiras contra invasões se estão a roubar os jovens das suas casas?»

«Eu... já percebi», sussurrei. «Estou segura? Aqui? Será que vou... ser traficada?»

O que eu queria saber era se voltaria para a sala cinzenta.

Ele riu-se novamente, inclinando a cabeça para trás sobre o pescoço grosso, mostrando os dentes grandes. «Não, não!», exclamou ele. «A minha pequena Dita está a salvo, ela é a minha amiga especial, não é verdade?»

Sorri de volta, mas lembrei-me da sala cinzenta e da mão do homem corpulento a levantar-me a saia, a tatear à procura das minhas cuecas.

Perguntei-me se voltaria para lá caso não me revelasse uma amiguinha satisfatoriamente dedicada.

Levantei a cabeça, olhei-o nos olhos e dei-lhe o melhor sorriso. «Sinto-me honrada por ser sua amiga, Papa Juan.»

Apertei-lhe a mão suada e inspirei profundamente, absorvendo o seu cheiro nos meus pulmões. Lembrei-me das histórias da minha avó.

Ah, os rapazes que montavam o jaguar nunca podiam desmontar, nunca, nunca. Porque, se o fizessem, o jaguar perceberia que se tratava de carne fresca e devorá-los-ia.

Eu era carne fresca, por isso sorri amplamente, com admiração, e soltei uma risadinha infantil. Esse foi outro erro, mas só viria a saber disso muitos anos mais tarde.


MC

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