Alguns amores enterramos
enterrados bem fundo,
Ao abrigo dos trovões e granizo
Outros amores enterramos
Em sepulturas escassas,
E afastamo-nos.
Assim, mesmo que os mortos
Implorem e murmurem,
Com as línguas a roçar
Húmidas no cascalho empoeirado.
Não ouvimos.
Afastamos-nos,
E caminhamos, corremos;
Fugimos, viajamos
Sempre para longe; porque
Alguns amores enterramos
Em sepulturas escassas,
E embora o cadáver
Esteja frio e imóvel,
Não ousamos voltar-nos
Para não vermos
Através da terra
Descuidadamente espalhada
O delicado tombar
Dos dedos em torno
De uma palma suplicante,
Ainda oferecendo amor,
Implorando ternura
Como uma esmola.
Manuela Cardiga