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Saturday, 6 June 2026

ELOGIO FUNERÁRIO NO CEMITÉRIO DE UMA IGREJA RURAL

Alguns amores enterramos

enterrados bem fundo,

Ao abrigo dos trovões e granizo


Outros amores enterramos

Em sepulturas escassas,

E afastamo-nos.


Assim, mesmo que os mortos

Implorem e murmurem,

Com as línguas a roçar

Húmidas no cascalho empoeirado.

Não ouvimos.


Afastamos-nos,

E caminhamos, corremos;

Fugimos, viajamos

Sempre para longe; porque

Alguns amores enterramos

Em sepulturas escassas,

E embora o cadáver

Esteja frio e imóvel,

Não ousamos voltar-nos

Para não vermos

Através da terra

Descuidadamente espalhada


O delicado tombar

Dos dedos em torno

De uma palma suplicante,


Ainda oferecendo amor,

Implorando ternura

Como uma esmola.


Manuela Cardiga

ZOMBIES APAIXONADOS

Quero abrir

O cofre de osso

Onde usas

O teu intelecto

Para afinar

A tua paixão:

Fabricar desejos

Teorias

E rimas.


Quero passar

A minha língua ávida

Pelas trêmulas

Ondulações

Do teu cerebelo:

Deixá-lo rosado

E doce;

Brilhante e escorregadio

Com a minha saliva.



Manuela Cardiga

«VIVA!», GRITOU A PUTA NA QUERMESSE

«Temos

muito em comum»,

diz a Puta

à Mulher do Padre.


“Fazemos a nossa parte

Pela comunidade

Deixando de lado a nossa necessidade

Pelo bem comum:

Tu apoias o sacristão,

Eu cuido da vara com tesão.

Tu ajoelhas-te perante Deus.

Eu ajoelho-me perante o pastor.


A diferença é

Que tu comes a Hóstia de bom grado

Eu engasgo-me

Com o Vinho Sagrado...”



MC