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Thursday, 10 September 2026

A Meretriz do Ditador Capítulo I

Capítulo I


Vou morrer em breve, sei disso. Vão enterrar-me numa sepultura sem nome, e os livros de história vão recordar-me como a Meretriz do Ditador, mas eu era só uma rapariga que queria ser bailarina.

Naquela altura, a vida era emocionante. Estava na universidade e, de repente, comecei a encurtar as minhas saias, a usar uma boina francesa e a fumar cigarros americanos proibidos.

Tinha dezassete anos e estava embriagada pela vida e pela minha própria ousadia. Quando os estudantes de arte decidiram fazer uma marcha silenciosa até ao Palácio branco como o açúcar do Generalíssimo para protestar contra o desaparecimento de tantos de nós, decidi ir também.

A verdade é que queria impressionar o Pedro Baltazar, que era estudante de literatura e poeta e tinha uns olhos perigosos e encovados e uma boca linda. Fui à marcha para estar perto dele e nunca mais o vi.

Marchámos com cartazes que mostravam os rostos dos estudantes desaparecidos, sem slogans nem exigências. Acreditávamos que, se não escrevêssemos: ASSASSINO DE CRIANÇAS, TORTURADOR, eles não poderiam contestar. ELE não poderia contestar.

Éramos tão tolas, tão infantis. Olhando para trás agora, percebo isso. Quão fútil foi toda aquela dor, todas aquelas mortes. Não mudámos nada.

Após quinze anos como amante do Generalíssimo, a sua bem-amada, a única mulher que ele alguma vez amou, eu não mudei nada.

Mas estou a perder o rumo e o meu tempo está a esgotar-se. Fui àquela marcha com a minha saia mais curta para exibir as minhas longas pernas de bailarina, a minha boina, um toque ousado de batom e o perfume da minha mãe.

Deram-me a fotografia de uma rapariga com um rosto apagado e pesado e uma testa cheia de borbulhas. Até hoje, não sei o nome dela, mas quando o Pedro me deu o cartaz, os nossos dedos tocaram-se.

Corei e fiquei a olhar para a boca dele e para a forma como o lábio inferior formava uma covinha, e imaginei que, no final do dia, o estaria a beijar.

No final daquele dia, estava a gritar e a debater-me no chão de uma sala cinzenta, enquanto um homem brutal, de cabelo à escovinha, me empurrava a saia para cima com uma mão sapuda.

Havia outros dois homens fardados a assistir e implorei por ajuda. Limitaram-se a olhar para mim, e um deles tirou calmamente um cigarro e bateu-o contra a unha grossa e amarelada do polegar.

Consegui libertar uma mão e arranhei com as unhas o rosto do meu agressor. Ele amaldiçoou-me e desferiu um soco na minha têmpora.

A dor foi enorme e silenciosa e, no meio da vertigem que se seguiu, vi e senti, ao mesmo tempo, uma agitação. O homem em cima de mim tinha desaparecido milagrosamente e braços gentis seguravam-me.

«FORA!», trovejou uma voz retumbante. «Como te atreves a magoar um dos meus filhos?»

Inclinado sobre mim, a olhar para mim com preocupação, estava um rosto que eu conhecia de mil retratos oficiais: o Generalíssimo, o Pai da Nação, o homem a quem o mundo chamava o Carniceiro de Belvária.

Manuela Cardiga

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