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Thursday, 21 September 2017

PUNHOS DE RENDA

Punhos de renda
Para que a dor não ofenda
Coração de mulher

Levanta-lhe a mão
Atira-a para o chão
Ajoelha-se: "Perdão"

Enquanto ele grita,
Ela hesita,
Receia e agita
Asas para voar

Mas comovida
Por aquele pranto


Deixa-se enganar
Acaba por ficar

Já a mãe lhe diz
Torcendo o nariz
Ao seu lamentar:
"Minha filha acredita,
Antes essa dor maldita
Do que não ter quem te amar"

Punhos de renda
Para que a dor não ofenda
Para não marcar

Rosto tão lindo
Dadiva do Divino
Sua mulher, seu par

Ele tem desdém
Não permite quem
Os queira separar

Homem de bém
Só é alguém
Mestre do seu lar

Punhos de renda
Para que a dor não ofenda
Para não chorar

Ela não fala,
Quem consente cala,
Não pode reclamar

Punhos de renda
Flores escarlates de amor,
Salpicos de horror

A vizinha grita
"Silencio, olha a fita...
Parem de bulhar."

Punhos de renda,
Morta com uma venda
De sangue no olhar

Negro luto, tanta dor
Diz o povo sem pudor
"Quem poderia sonhar..."


Manuela Cardiga

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